Quando somos adolescentes acreditamos na existência do sempre, do imutável, da transparência, da realização dos sonhos, e, sobretudo, da verdade na amizade. Á medida que nos tornamos adultos, vamos descobrindo o lado obscuro das pessoas; suas fraquezas, recalques, medos, duvidas, desvios de caráter e tudo mais que, durante a miopia da imaturidade, não pudemos enxergar. Nosso ego é enorme, talvez inflado por nossos pais, por filmes e livros. Mas não somos Napoleão ou Buda. Não escrevemos como Ernest Hemingway. Não temos a força de Leônidas, nem mesmo somos espartanos; e ficamos revoltados com isso. Mas somos impotentes ante tal descoberta. Com o tempo descobrimos outros caminhos e desejos, procurando enxergar o lado simples e objetivo da vida. Aprendemos que os defeitos nos tornam mais humanos e que com eles crescemos. Então passamos a experimentar sensações, gostos doces e amargos, amores canalhas e reais, pessoas que nos completam ou destroem e mesmo assim pomos os dedos na chapa em brasa para sentir que estamos vivos. Assim seguimos este eterno curso de erros.
Pessoas passam por nossas vidas; em determinado momento foram indispensáveis, como aquele amor imensurável que hoje é um quadro de Monet, expressando o mais puro e inocente que existia dentro de nós, porém sem realismo algum, mas somos reais.
Pensávamos ser impossível existir sem determinados amigos, e continuamos vivos, mesmo estando mortos dentro de nós. Outros, ou, talvez, somente um, continuou existindo (era bom saber disso). Mas nossas vidas, entre idas e vindas, foram tomando cursos diferentes, outros são os nossos oceanos, outros são nossos sóis. Éramos amigos e pouco a pouco nos tornamos desconhecidos um ao outro, num processo de especiação já declarado por Darwin, que começa num isolamento de idéias e princípios, depois num geográfico. Mas não importa que assim o seja, não vamos procurar esconder ou calar, como se isso fosse motivo para nos envergonharmos. Assim é a vida.
Podemos nos cruzar, talvez, e celebraremos uma festa como tantas outras o fizemos, não como antes, não como os mesmos, pois a amizade ficou aprisionada no passado, numa foto de diário. Mas foi preciso nos tornar estranhos, porque era essa, talvez, nossa lei, e é por isso que nos devemos mais respeito e consideração, para que a idéia de nossa antiga amizade não se torne uma farsa, anulando alguns anos de nossas vidas ou fazendo com que sejamos cegos, surdos e mudos. Então acreditemos em nossa antiga amizade como algo á parte do que aprendemos com os tropeços e tapas na cara, fora dos conceitos deste mundo louco. Mesmo se tivermos de ser inimigos aqui na terra. Porque a vida é tão frágil e passageira, que não nos cabe o prazer da irracionalidade.
(Dimitri Padilha)
quinta-feira, 23 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Diário de um NAUFRÁGIO.

Sou este homem atormentado
Em sua jornada a procura
Do essencial para a vida,
Buscando na sabedoria
Das florestas um sentido real
Que faça renascer
Sem a angústia da excelência
Material, mas sim libérrimo
Das amarras que o prendem
Ao fundo do casco desse navio,
Naufrago que é em si.
Deixando marcas na areia cinza
Ele caminha em sua própria direção,
Num reencontro inconsciente.
Vestido de si mesmo,
Corre sem pudor
Ao encontro do mundo
Pois teme, à hora da morte,
Saber que não viveu.
(Dimitri Padilha)
segunda-feira, 30 de março de 2009
Sem fisiologismo e com volúpia.

Uma gota de chuva toca-me a cabeça
Numa rua onde passa uma mulher.
Desce a testa alcançando o rosto
E ela anda inebriante em mim.
Cinza, o dia caminha colorido a sua volta,
Levando-me a pensar nele que faz poetas viverem.
Anda em câmera lenta deixando visível seu aroma
Em névoa que ressoa dos poros direto ao peito,
Doído do saudosismo de sua presença na rua,
Segundos de fuga do caos do mundo.
A gota passa do rosto ao pescoço evaporando-se
E logo outras chegam a ensopar os cabelos
Arrepiando, unidas ao vento, a pele,
Que deseja essa mulher na rua.
Notórios são seus finos pêlos nas pernas
Levantando-se ao menor sinal do frio
Escapando por entre rasgos propositais
Do jeans que cobre o resto, e chove,
Entorpecido, permito-me andar sem pressa,
Ao ritmo dos seus passos.
Nas mãos Baudelaire, talvez Balzac,
Realçando de cérebro seus lábios
E olhos semi-abertos pintados
Com sombras de desprezo.
De repente surge uma curva.
Ela, sem titubeio, abandona a rua,
Deixando como remédio
Um sorriso que devasta a mente
Num mantra inconsciente.
Eis que reaparece a vida dura.
(Dimitri Padilha)
Numa rua onde passa uma mulher.
Desce a testa alcançando o rosto
E ela anda inebriante em mim.
Cinza, o dia caminha colorido a sua volta,
Levando-me a pensar nele que faz poetas viverem.
Anda em câmera lenta deixando visível seu aroma
Em névoa que ressoa dos poros direto ao peito,
Doído do saudosismo de sua presença na rua,
Segundos de fuga do caos do mundo.
A gota passa do rosto ao pescoço evaporando-se
E logo outras chegam a ensopar os cabelos
Arrepiando, unidas ao vento, a pele,
Que deseja essa mulher na rua.
Notórios são seus finos pêlos nas pernas
Levantando-se ao menor sinal do frio
Escapando por entre rasgos propositais
Do jeans que cobre o resto, e chove,
Entorpecido, permito-me andar sem pressa,
Ao ritmo dos seus passos.
Nas mãos Baudelaire, talvez Balzac,
Realçando de cérebro seus lábios
E olhos semi-abertos pintados
Com sombras de desprezo.
De repente surge uma curva.
Ela, sem titubeio, abandona a rua,
Deixando como remédio
Um sorriso que devasta a mente
Num mantra inconsciente.
Eis que reaparece a vida dura.
(Dimitri Padilha)
sábado, 28 de março de 2009
Fonte da vida.

À Ubaldina Carvalho Cruz, minha avó querida.
Caminho perdido em floresta medieval,
Adentro, mais sinto os sons do início,
Vendo com olhos familiares, etérea miragem,
Este homem na linha do tempo, mimetizado
Entre folhas secas caídas em solo enriquecido
O sangue corre branco nos longos troncos,
Capilares copas enverdecidas de luz que resvala
Retornando ao globo ocular iludido pelo córtex.
São outonais visões de infância perdida entre galhos,
Genealogia de restos mortais transmutados em árvores.
Mais adentro, penetro em mim mesmo
Apresentada pelo espelho dos rios
Essa imagem irreconhecível do rosto que tenho
São pedaços falecidos de gente que ainda vive
Nos braços, pernas e tantos carbonos inalterados,
Decaindo a cada nascimento.
Rachados vasos nodosos de minha avó
Sangrando em Carvalho apodrecido
Mata fechada fechando ciclo
Vejo-me nos decompositores bichos
Sendo refeito a cada milênio
Numa mistura sem ritmo.
(Dimitri Padilha)
Caminho perdido em floresta medieval,
Adentro, mais sinto os sons do início,
Vendo com olhos familiares, etérea miragem,
Este homem na linha do tempo, mimetizado
Entre folhas secas caídas em solo enriquecido
O sangue corre branco nos longos troncos,
Capilares copas enverdecidas de luz que resvala
Retornando ao globo ocular iludido pelo córtex.
São outonais visões de infância perdida entre galhos,
Genealogia de restos mortais transmutados em árvores.
Mais adentro, penetro em mim mesmo
Apresentada pelo espelho dos rios
Essa imagem irreconhecível do rosto que tenho
São pedaços falecidos de gente que ainda vive
Nos braços, pernas e tantos carbonos inalterados,
Decaindo a cada nascimento.
Rachados vasos nodosos de minha avó
Sangrando em Carvalho apodrecido
Mata fechada fechando ciclo
Vejo-me nos decompositores bichos
Sendo refeito a cada milênio
Numa mistura sem ritmo.
(Dimitri Padilha)
segunda-feira, 2 de março de 2009
Poema de páscoa.
Ao amigo Dorival Filho.
Pousas em meu rosto uma mosca.
Faminta, lambes meu sangue
Sedenta, matas meu suor.
Es minha existência precipitada a pó.
Bactéria pré-natal
Incubada na fecundação
Esse câncer que desperta prematuro
Anunciador do futuro.
Hoje sou voz e pensamento
Contato e redenção.
Amanhã serei lama, vento,
Um cipreste crescendo
Nesse Eterno Retorno do carbono
Quem sou não sei mais.
Serei essa voz diária desde que me conheci
Que fala sem som?
Quando ela cala ficamos mudos de existência?
Para onde vai a consciência na ausência das sinapses,
Senão para o chão, completando o ciclo da matéria?
(Dimitri Padilha).
Pousas em meu rosto uma mosca.
Faminta, lambes meu sangue
Sedenta, matas meu suor.
Es minha existência precipitada a pó.
Bactéria pré-natal
Incubada na fecundação
Esse câncer que desperta prematuro
Anunciador do futuro.
Hoje sou voz e pensamento
Contato e redenção.
Amanhã serei lama, vento,
Um cipreste crescendo
Nesse Eterno Retorno do carbono
Quem sou não sei mais.
Serei essa voz diária desde que me conheci
Que fala sem som?
Quando ela cala ficamos mudos de existência?
Para onde vai a consciência na ausência das sinapses,
Senão para o chão, completando o ciclo da matéria?
(Dimitri Padilha).
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Sobre a Lua (Saudosismo).

A lua hoje é uma prostituta velha
Que ainda se julga apetecível
Para homens que zombam dela.
Não há espaço para seu brilho
Tomado por holofotes de boates
E fumaças ilegais.
Suas crateras defloradas por poetas bêbados
Deixam celulites expostas no vestido rasgado
Nem seus dentes foram poupados
Em socos arrependidos de adúlteros mal-amados.
Pobre puta gonocócica sem valor
Hoje lhe resta esse poema sem poesia.
(Dimitri Padilha)
Que ainda se julga apetecível
Para homens que zombam dela.
Não há espaço para seu brilho
Tomado por holofotes de boates
E fumaças ilegais.
Suas crateras defloradas por poetas bêbados
Deixam celulites expostas no vestido rasgado
Nem seus dentes foram poupados
Em socos arrependidos de adúlteros mal-amados.
Pobre puta gonocócica sem valor
Hoje lhe resta esse poema sem poesia.
(Dimitri Padilha)
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Angústia.
Hoje duzentos anos pesam sobre mim,
Sinto os olhos cansados e o corpo pesado
Arrastando correntes sem dever pena.
Minha liberdade é cheia de algemas
Quebrando-me os pulsos, não mais os tenho.
Relógio sem tempo travando a traquéia, apertando, apertando,
Apertando, a cada minuto, menos um instante me resta.
Ah! Noites intermináveis, quem dera sentir a luz
Doer os olhos, o vento ressecar os lábios,
Uma música romper o permanente silêncio
Imposto por esse século,
Pelo transloucado darwinismo do capital.
Três milênios dobram minhas costas
Arrancam dentes, desfiam cabelos,
Apodrecem tecidos, torna lama células,
Investe contra o caráter (algumas vezes sem sucesso)
Arreda logo existência, não cansa.
Afasta de mim esse vinho inebriante, esse mentiroso (e diário) renascimento.
On voit le soleil.
(Dimitri Padilha)
Sinto os olhos cansados e o corpo pesado
Arrastando correntes sem dever pena.
Minha liberdade é cheia de algemas
Quebrando-me os pulsos, não mais os tenho.
Relógio sem tempo travando a traquéia, apertando, apertando,
Apertando, a cada minuto, menos um instante me resta.
Ah! Noites intermináveis, quem dera sentir a luz
Doer os olhos, o vento ressecar os lábios,
Uma música romper o permanente silêncio
Imposto por esse século,
Pelo transloucado darwinismo do capital.
Três milênios dobram minhas costas
Arrancam dentes, desfiam cabelos,
Apodrecem tecidos, torna lama células,
Investe contra o caráter (algumas vezes sem sucesso)
Arreda logo existência, não cansa.
Afasta de mim esse vinho inebriante, esse mentiroso (e diário) renascimento.
On voit le soleil.
(Dimitri Padilha)
Solilóquio de um perdido.
À Jorge de Souza Araújo, professor e poeta.
Não falo em chão, porque há muito não os sinto sob os pés.
Tenho pernas arrancadas, olhos que enxergam escravizados,
Boca e língua liquefeitos, sublimados.
Tenho no peito uma Supernova que aquece e resfria,
Pulsando a cada dia no imenso vácuo, sugando o que há de palpável
Nesse espaço acabado, degradado, isento, superficialmente sensibilizado.
Não me refiro aos braços amputados (ainda os vejo sobre a mesa)
Que sempre estiveram calados ao contato hansenico,
Ao cheiro suado de lençol insone sob luz apagada,
Da lua esquecida por poetas vivos, mortos a cada dia.
Hoje são os becos que caminham os homens,
Solitariamente acompanhados num arrastão de pessoas
Que não se vêem.
Pára humanidade, não caminha mais.
(Dimitri Padilha)
Não falo em chão, porque há muito não os sinto sob os pés.
Tenho pernas arrancadas, olhos que enxergam escravizados,
Boca e língua liquefeitos, sublimados.
Tenho no peito uma Supernova que aquece e resfria,
Pulsando a cada dia no imenso vácuo, sugando o que há de palpável
Nesse espaço acabado, degradado, isento, superficialmente sensibilizado.
Não me refiro aos braços amputados (ainda os vejo sobre a mesa)
Que sempre estiveram calados ao contato hansenico,
Ao cheiro suado de lençol insone sob luz apagada,
Da lua esquecida por poetas vivos, mortos a cada dia.
Hoje são os becos que caminham os homens,
Solitariamente acompanhados num arrastão de pessoas
Que não se vêem.
Pára humanidade, não caminha mais.
(Dimitri Padilha)
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