quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sobre a Lua (Saudosismo).




A lua hoje é uma prostituta velha
Que ainda se julga apetecível
Para homens que zombam dela.
Não há espaço para seu brilho
Tomado por holofotes de boates
E fumaças ilegais.
Suas crateras defloradas por poetas bêbados
Deixam celulites expostas no vestido rasgado
Nem seus dentes foram poupados
Em socos arrependidos de adúlteros mal-amados.
Pobre puta gonocócica sem valor
Hoje lhe resta esse poema sem poesia.

(Dimitri Padilha)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Angústia.

Hoje duzentos anos pesam sobre mim,
Sinto os olhos cansados e o corpo pesado
Arrastando correntes sem dever pena.

Minha liberdade é cheia de algemas
Quebrando-me os pulsos, não mais os tenho.
Relógio sem tempo travando a traquéia, apertando, apertando,
Apertando, a cada minuto, menos um instante me resta.

Ah! Noites intermináveis, quem dera sentir a luz
Doer os olhos, o vento ressecar os lábios,
Uma música romper o permanente silêncio
Imposto por esse século,
Pelo transloucado darwinismo do capital.

Três milênios dobram minhas costas
Arrancam dentes, desfiam cabelos,
Apodrecem tecidos, torna lama células,
Investe contra o caráter (algumas vezes sem sucesso)
Arreda logo existência, não cansa.
Afasta de mim esse vinho inebriante, esse mentiroso (e diário) renascimento.

On voit le soleil.

(Dimitri Padilha)

Solilóquio de um perdido.

À Jorge de Souza Araújo, professor e poeta.

Não falo em chão, porque há muito não os sinto sob os pés.
Tenho pernas arrancadas, olhos que enxergam escravizados,
Boca e língua liquefeitos, sublimados.
Tenho no peito uma Supernova que aquece e resfria,
Pulsando a cada dia no imenso vácuo, sugando o que há de palpável
Nesse espaço acabado, degradado, isento, superficialmente sensibilizado.
Não me refiro aos braços amputados (ainda os vejo sobre a mesa)
Que sempre estiveram calados ao contato hansenico,
Ao cheiro suado de lençol insone sob luz apagada,
Da lua esquecida por poetas vivos, mortos a cada dia.
Hoje são os becos que caminham os homens,
Solitariamente acompanhados num arrastão de pessoas
Que não se vêem.

Pára humanidade, não caminha mais.

(Dimitri Padilha)